O que um videogame criado por um adolescente no Brasil de 1985 ensina sobre paixão, amizade e resiliência

O COMEÇO

EM BUSCA DOS TESOUROS é um jogo criado em 1986 pelo então adolescente de 15 anos, Tadeu Curinga. Disponibilizado num período em que o Brasil limitava a entrada de produtos tecnológicos estrangeiros por meio da chamada Política Nacional de Informática (chamada de Reserva de Mercado), o jogo surpreendeu uma geração com pouco acesso ao que o mundo produzia em termos de hardware e software. Os gráficos avançados, a quantidade de telas e o nível de dificuldade entraram pro imaginário de quem estava acostumado a produtos arcaicos para máquinas com limitações consideráveis - cópias do que era produzido lá fora.

Réplica de quarto da década de 1980 montada na Brasil Game Show 2019 pela Video Game Data Base

O game que fascinou uma geração foi completamente programado no quarto de Tadeu, na época estudante do hoje Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Com o tempo, o avanço da tecnologia e entrada de novas máquinas e jogos no Brasil, EBdT acabou se perdendo e o jovem se afastou completamente do mundo da programação. Sua criação, no entanto, não foi esquecida por muitos entusiastas dos microcomputadores e videogames e a busca pelo jogo e pelo autor mobilizou algumas dessas pessoas, entre elas o cientista da computação Murilo Saraiva de Queiroz e os colecionadores, Kelly A. Murta e Marcus Vinicius Garrett Chiado.

Nascido na cidade de São Francisco (Norte de Minas Gerais), Murilo era dono de um TK85 na década de 1980. O computador doméstico era fabricado pela brasileira Microdigital, que copiou o ZX-81 (computador de baixíssimo custo projetado pelo lendário inventor britânico Sir Clive Sinclair). Para o auto-proclamado “geek em formação”, EBdT representava uma revolução: um jogo de qualidade muito superior a qualquer um existente para o seu humilde micro. Mas a empolgação ficou no imaginário. O jogo era vendido pelo correio pela revista Micro Sistemas, e em fita cassete custava Cz$ 120, o equivalente a cerca de R$ 40 hoje em dia, e a listagem impressa para digitação custava Cz$ 50, cerca de R$ 18.

“Do alto dos meus nove anos,
conseguir uma cópia era basicamente impossível:
eu nunca ia conseguir convencer ninguém a enviar um
vale-postal de sei lá, 5 dólares, em troca de algo tão
abstrato quanto um "programa de computador".”

A BUSCA

A frase acima está no artigo 16 KB de Alegria, publicado originalmente em 2002, no portal Plano-B (do extinto GRUDE UFMG). No texto, Murilo narra a primeira vez em que jogou Em Busca dos Tesouros, quinze anos depois do lançamento do jogo. A obsessão para encontrar o título começou com uma visita ao Museu de Ciências de Londres, em que Murilo viu de perto alguns dos computadores projetados por Sinclair.

Sinclair ZX 81 e propaganda do TK85.
“Sei lá porque me lembrei dele; talvez porque tenha sido o primeiro jogo de computador que tenha me impressionado.
Sinclair ZX 81 e propaganda do TK85.

Voltei a Paris, onde morava, obcecado pelo software. Escrevi para Deus-e-todo-mundo, perguntando se alguém tinha uma cópia [...]Quando finalmente admiti que a busca seria infrutífera, surpreendentemente, ao som da trilha sonora de Águia de Fogo, recebi um e-mail de Kelly A. Murta contendo o link para o jogo. Confesso que fiquei ansioso, suando frio (talvez fosse culpa da quantidade absurda de cerveja consumida horas antes). Não podia imaginar que, quinze anos depois, eu ia (finalmente) poder jogar o Em Busca dos Tesouros.”

O colecionador Kelly A. Murta tinha 16 anos e um TK82C em 1986, quando também se apaixonou à primeira vista pelo EBdT nas páginas da revista Micro Sistemas. Mas, ele teve um pouco mais de sorte que Murilo: seu pai liberou o sonhado cheque de Cz$50,00 (cinquenta Cruzados) para ele encomendar a lista impressa de digitação do jogo! O adolescente pacientemente digitou todo o jogo a partir da lista, gravou em cassete e colocou seu TK82C para rodar:

“A recompensa que tive ao rodar o jogo pela primeira vez foi indescritível. Confirmou totalmente todas as minhas expectativas e inflou minha admiração pelo jovem criador daquele fantástico jogo.”

Linha_ do Tempo:

>> 1985
Aos nove anos de idade,
Murilo ganha um TK85*
*um computador nacional limitadissimo, clone do britânico Sinclair ZX81 (lançado anos antes no Reino Unido como uma porta de entrada de baixissimo custo ao mundo da computação) e se apaixona por programação.
>> 1986
Murilo descobre o
"Em Busca dos Tesouros"
Folheando a revista Micro Sistemas (a primeira do Brasil dedicada aos microcomputadores), Murilo descobre o "Em Busca dos Tesouros", um jogo desenvolvido no Brasil por um adolescente de Natal-RN, Tadeu Curinga. A descrição e as imagens sugeriam que o jogo era muito mais elaborado que qualquer um conhecido na época (inclusive no Reino Unido), dadas as anormes restrições do computador usado.
>> 2002
Murilo relembra do TK85 e do jogo "Em Busca dos Tesouros"
Formado em ciência da computação e morando em Paris, Murilo visita o Museu de Ciências de Londres, durante uma viagem a Ingraterra e relembra do TK85 e do jogo "Em Busca dos Tesouros", que nos anos 80 ele nunca havia conseguido comprar, e sai à procura do jogo.
>>2002
Murilo encontra o jogo recuperado
Semandas depois, com a ajuda de outros entusiastas, ele encontra o jogo, recuperado por Kelly A. Murta, que havia digitado o jogo na epóca e gravado em uma fita cassete.
Murilo modifica o jogo
Murilo finalimente comprova que o jogo era tão divertido quanto imaginava quando criança! Mas "Em Busca dos Tesouros" é tão dificil que Murilo precisa trapacear modificando o jogo para que ele tenha vidas infinitas e assim conseguir terminá-lo.
>> Entre 2003 e Abril de 2006
Murilo e um grupo de fãs procuram o autor do jogo
Muriulo e um grupo de fãs tentam, em vão, encontrar o autor do jogo, entrando em contato com a antiga equipe da revista Micro Sistemas e com a Escola Técnica onde Tadeu estudou, sem sucesso.
Murilo consegue a Caixa Postal do autor do jogo
Após encontrar uma página da geneologia da família de Tadeu Curinga da Silva, Murilo entra em contado com a mãe do autor do jogo, que lhe passa uma caixa postal no Rio de Janeiro. Murilo escreve a Tadeu uma primeira carta, falando sobre a paixão pelo jogo e a busca pelo autor.
>> Maio de 2006
Tadeu Curinga envia uma primeira resposta
No texto, Tadeu se diz surpreso e agradecido pelo interesse e promete buscar material sobre o jogo. Curinga narra também um pouco do processo de criação. Ele menciona a possibilidade de que ainda exista um caderno com o código fonte do jogo manuscrito.
Tadeu envia uma carta a Murilo contando que encontrou o caderno
Tadeu envia uma carta a Murilo contando que encontrou o caderno com o codigo fonte do jogo, que envia junto com o texto. Ele autoriza a divulgação do código e do caderno, com a condição de que nada seja alterado e de que o material seja devidamente preservado. Na carta, com 25 páginas, o autor escreve detalhes sobre o código fonte e o processo de criação do jogo.
>> Setembro de 2012
Tadeu, Murilo e Kelly se encontram pessolamente
Tadeu, Murilo e Kelly se encontram pessoalmente num encontro de colecionadores de videogames e computadores antigos em Belo Horizonte. Nem mesmo Tadeu consegue terminar o jogo no hardware original!
>> 2019
Murilo, Tadeu e Kelly se encontram para gravação de documentário
Murilo, Tadeu e Kelly se encontram novamente dessa vez para a gravação do documentário "LOADING... Nossos Primeiro Jogos de Computador", no qual o EBdT tem uma posição de destaque.
Garrett, Kelly e Tadeu trabalham num EBdT para colecionadores
Garrett, Kelly e Tadeu trabalham numa versão para colecionadores do "Em busca dos Tesouros", com aprimoramentos no jogo, a ser lançado no Brasil e na Europa em fita cassete com manual e embalagem de luxo
Só Tadeu conseguiu terminar o jogo
Ninguém, a não ser o próprio Tadeu quando adolescente, conseguiu terminar o EBdT sem trapacear. Nas horas vagas, Murilo trabalha numa inteligência artificial baseada em aprendizado por reforço em redes neurais, para terminar sozinha o Em Busca dos Tesouros.
Mais sobre o assunto em um artigo do Murilo.

Como bom colecionador, Kelly guardou a fita por anos, ainda que o entusiasmo pelos jogos de TK tenha dado lugar a outras prioridades com o passar do tempo. Mas, no início dos anos 2000, ele tropeçou em um emulador de ZX81 enquanto navegava pela internet e a nostalgia tomou conta. Desenterrou as fitas K-7s antigas, entre elas o EBdT, e não parou por aí: logo estava revirando a internet atrás de informações e mais programas para rodar no emulador.

“A intenção era apenas a de poder jogá-los no emulador, ainda não tinha consciência de que esse sentimento de nostalgia que eu estava vivenciando também estava aflorando em outras pessoas pelo Brasil afora.”

Kelly encontrou diversos anúncios de pessoas que, como ele, procuravam programas e jogos de ZX81 e começou a trocar mensagens com elas. Alguém lembrou do EBdT, e como tinha curiosidade em conhecer o jogo. “Quando eu respondi que o tinha foi um frenesi só.” Ainda não se sabia, mas nem mesmo Tadeu, que criou o jogo, tinha uma cópia em K-7 de EBdT nos anos 2000. Kelly tinha ressuscitado o EBdT. Criou-se um grupo de emails, e ele compartilhou o código do jogo e o emulador com os novos amigos.

E foi assim que, após semanas de busca, Murilo e Garrett, o primeiro em Minas, e o segundo em São Paulo, receberam um email do grupo com uma cópia de Em Busca dos Tesouros e meios de rodá-lo em um computador moderno, via emulação.

“A sensação foi uma das mais estranhas que eu poderia imaginar. Não era saudade ou nostalgia, pois afinal de contas era a primeira vez que via o jogo funcionando. Também não era mera curiosidade arqueológica.

“Era como se eu
recuperasse alguma
coisa, como se
eu fosse novamente
um moleque de nove
anos descobrindo
o que se podia fazer com
um computador.”

Murilo

A emoção de jogar EBdT tantos anos depois de sua criação não terminou ao fechar o emulador - nem para Garrett, nem para Murilo. Conscientes ou não da importância histórica da jornada que estavam iniciando, os dois viriam a ser parte importante numa busca, que durou anos, atrás do genial criador do EBdT.

Em Busca dos Tesouros foi encontrado, mas se sabia muito pouco sobre o jogo e o interesse em encontrar o autor levou Murilo a uma pesquisa que só terminou em 2006. Depois de algumas reviravoltas, ele encontrou uma página com a genealogia de um patriarca distante da família de Tadeu Curinga, e após um telefonema para sua mãe conseguiu enviar uma carta para o autor.
“O motivo dessa mensagem é bem simples, e acredito que você irá achar também bastante curioso: desde criança, em 1986, sou fascinado pelo seu fantástico jogo, Em Busca dos Tesouros, com o qual tomei contato através da revista Micro Sistemas mas que apenas pude efetivamente conhecer em 2003 - após muito esforço, consegui encontrar uma fita K-7 contendo o mesmo, que foi devidamente restaurado. Sou colecionador de videogames e microcomputadores antigos e fiquei impressionado com a qualidade do seu trabalho - especialmente levando-se em consideração a época em que foi desenvolvido.”

O PEDIDO

A resposta chegou um mês depois, em uma carta de Tadeu carregada de lembranças sobre a construção do jogo
“A sua carta reacendeu uma chama em mim que há muito tempo estava apagada. Ela foi capaz de despertar sentimentos adormecidos de um passado distante [...] Em Busca dos Tesouros faz parte de um momento
mágico em minha vida.”
“Que saudade fodida.
De lá pra cá muita coisa aconteceu,
naturalmente. A vida foi me levando
por caminhos totalmente diferentes daqueles
relacionados aos computadores, e eu fui cada
vez mais me distanciando da programação
de jogos, o que me deixou muita saudade.
Os anos foram passando (e rápidos), eu fui
crescendo, as coisas foram acontecendo,
e o EBdT foi ficando para trás.”
Na carta, além da narrativa emocionada sobre as lembranças do processo de construção de EBdT, Tadeu contava que boa parte do material relacionado à construção do jogo se perdeu, mas mencionava a possibilidade de existência do caderno original com o código fonte escrito a lápis. Em setembro de 2006, ele encontrou o caderno e o enviou para Murilo. Junto com a peça preciosa, seguia uma carta manuscrita de 25 páginas! A narrativa passeia entre relatos técnicos e oníricos sobre as inspirações para o jogo. Tadeu explicava em detalhes o código fonte, o processo de criação e o funcionamento de EBdT. Além disso, autorizava a divulgação do código e do caderno com três condições: que nada fosse modificado, que o material fosse devidamente preservado e a terceira, uma demanda peculiar:
“Eu gostaria de lhe pedir um 3o. favor, só que esse é com relação ao jogo: eu gostaria que você soltasse o PEIXE RASTEJANTE, que está preso na tela 089, embaixo, entre as duas paredes. Ele já está preso há mais de 20 anos, querendo sair, sem poder. Rasteja para um lado, esbarra na parede, aí rasteja para o outro lado, aí esbarra na outra parede, e assim por diante, tentando desesperadamente sair daquela prisão, sem poder [...] Acho que já ficou preso por tempo suficiente, já basta de tanta punição. Agora que você já sabe como é que as telas são feitas, será fácil soltá-lo, basta retirá-lo de lá. Ficarei bastante aliviado, acho que só assim o sentimento de culpa se dissipará.”
O personagem havia sido preso na tela pelo programador após um sonho. Antes de Murilo ter a oportunidade de fazer a modificação, um outro fã, Gustavo del Dago, da Argentina, realizou o feito.
Tadeu Curinga, que na época das cartas era oficial da Marinha Mercante, hoje é empresário e vive no Rio de Janeiro.
Murilo trabalha numa inteligência artificial (aprendizado por reforço usando redes neurais) para terminar sozinha o "Em Busca dos Tesouros". Saiba mais sobre o assunto
Kelly é engenheiro de telecomunicações, vive atualmente em Belo Horizonte. Eventualmente ainda arruma um tempinho para se desestressar com seus ZX81 e TK82C, os quais conserva com grande carinho e participa do processo de relançamento do EBdT.
Kelly (esquerda) é engenheiro de telecomunicações, vive atualmente em Belo Horizonte. Eventualmente ainda arruma um tempinho para se desestressar com seus ZX81 e TK82C, os quais conserva com grande carinho e participa do processo de relançamento do EBdT.

Tadeu Curinga (meio), que na época das cartas era oficial da Marinha Mercante, hoje é empresário e vive no Rio de Janeiro.

Murilo (direita) trabalha numa inteligência artificial (aprendizado por reforço usando redes neurais) para terminar sozinha o "Em Busca dos Tesouros". Saiba mais sobre o assunto
Garrett é documentarista e colecionador. Acaba de conseguir relançar, no Brasil e na Europa, (começando por Portugal) o Em Busca dos Tesouros em uma edição vintage de luxo em fita cassete, com vários aprimoramentos incluindo efeitos sonoros, versão em inglês compatível com computadores britânicos e outras surpresas. As modificações técnicas foram feitas por Kelly, com base no caderno com o código-fonte original. A nova trilha sonora foi composta pelo português Pedro Pimenta.




Ninguém, a não ser o próprio Tadeu, conseguiu terminar o EBdT sem trapacear.

Acesse o jogo original numa versão on-line e material relacionado ao jogo.
Informações Legais (Clique para visualizar)

Acknowledgements

The Javascript version of Jtyone was converted from the original EightyOne emulator which includes code by Mike Wynne and Philip Kendall. The emulator uses adapted versions of js-unzip and js-inflate to access TZX files within ZIP files.

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  java -jar jtyone.jar 
      [tzx file name[@track number] ]
      [-scale screen size multiplier]
      [-hires {qs|dk}]
      [-machine {ZX81|ZX80}]

  For example:
  java -jar jtyone.jar 10Games.tzx@3 -scale 3
              

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Referências:
Acesse todo o material original, incluindo a crônica e as cartas, no site antigo do EBdT, criado por Murilo em 2002.

Créditos:
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Design: Jessica Albuquerque (Jessicapuppe@gmail.com)
Redação e conteúdo: Nara Lacerda (naralacerda@gmail.com )
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